Internet: ferramenta de controle social ou da sociedade de controle? (parte II)

By emvogas

Para fundamentar melhor essa tese, remontamos ao texto “Sociedade de Controle”, de Rogério da Costa, filósofo, professor na Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP e coordenador do Laboratório de Inteligência Coletiva (rogcosta@pucsp.br, www.pucsp.br/linc). No artigo, conforme a sua própria ementa, o autor toma por base as reflexões do filósofo Gilles Deleuze sobre o trabalho de Michel Foucault, num artigo intitulado “Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle“. Aborda também as recentes tecnologias de controle e os mais recentes projetos do governo norte-americano para rastrear as ações de indivíduos no planeta. Destacamos, aqui, os trechos que consideramos mais significativos:

“Não há necessidade de ficção científica para conceber um mecanismo de controle que forneça a cada instante a posição de um elemento em meio aberto, animal numa reserva, homem numa empresa (coleira eletrônica). Félix Guattari imaginava uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, graças ao seu cartão eletrônico, que removeria qualquer barreira; mas, do mesmo modo, o cartão poderia ser rejeitado tal dia, ou entre tais horas; o que conta não é a barreira, mas o computador que localiza a posição de cada um, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal”. Gilles Deleuze (1990)

Sociedade Disciplinar X Sociedade de Controle

Seguindo as análises de Michel Foucault, Deleuze percebe no enclausuramento a operação fundamental da sociedade disciplinar, com sua repartição do espaço em meios fechados (escolas, hospitais, indústrias, prisão…), e sua ordenação do tempo de trabalho. Ele chamou esses processos de moldagem, pois um mesmo molde fixo e definido poderia ser aplicado às mais diversas formas sociais. Já a sociedade de controle seria marcada pela interpenetração dos espaços, por sua suposta ausência de limites definidos (a rede) e pela instauração de um tempo contínuo no qual os indivíduos nunca conseguiriam terminar coisa nenhuma, pois estariam sempre enredados numa espécie de formação permanente, de dívida impagável, prisioneiros em campo aberto. O que haveria aqui, segundo Deleuze, seria uma espécie de modulação constante e universal que atravessaria e regularia as malhas do tecido social.

Convém aqui relembrar a maneira como Castells aborda as reconfigurações que a Internet ocasiona nas nossas noções de tempo-espaço, inaugurando, inclusive, o conceito de “tempo intemporal” e “espaços de fluxo”. Em “A Sociedade em Rede – a Era da Informação”, ele sustenta que:

“[...] o novo sistema de comunicação transforma radicalmente o espaço e o tempo, as dimensões fundamentais da vida humana. Localiades ficam despojadas de seu sentido cultural, histórico e geográfico e reintegram-se em redes funcionais ou em colagens de imagens, ocasionando um espaço de fluxo que substitui o espaço de lugares. O tempo é apagado no novo sistema de comunicação já que passado, presente e futuro podem ser programados para interagir entre si na mesma mensagem”.

A linguagem digital do controle

Dando prosseguimento à transcrição dos trechos do artigo de Costa:

Nas sociedades de controle, “o essencial não seria mais a assinatura nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha (…) A linguagem digital do controle é feita de cifras, que marcam o acesso ou a recusa a uma informação” (Deleuze, 1990). Além disso, as massas, por sua vez, tornam-se amostras, dados, mercados, que precisam ser rastreados, cartografados e analisados para que padrões de comportamentos repetitivos possam ser percebidos.
[...] os dispositivos de controle se ocupam de informações resultantes das várias ações dos  indivíduos. Chamadas telefônicas, compras de passagem aérea, câmbio, transferência financeira, uso de cartão de crédito, etc.

A organização da informação e do poder

No primeiro tipo de sociedade [disciplinar], teríamos uma organização vertical e hierárquica das informações. Além disso, as informações parecem adequar-se à estratégia de compartimentalização que configura o dispositivo disciplinar. Dessa forma, cada instituição detém seu quinhão de informação, como algo que pertence ao seu próprio espaço físico. Há uma associação profunda entre o local, o espaço físico e o sentido de propriedade dos bens imateriais.

Numa tal situação, parece que a reivindicação fundamental seria: maior transparência do poder, para que possamos ver quem vive nos espiando e controlando. Essa crença acabou alimentando uma série de reflexões sobre a suposta transparência que a web nos ofereceria, e sua conseqüente força diante dos obscurantistas que defendem os velhos esquemas de poder. Assim, poderíamos ter finalmente com a web a liberdade de expressão, o acesso às informações democratizado, etc. Claro que nada disso é desprezível, sendo mesmo algo que nos permite uma mobilidade sem precedentes.

Mas, o que se passa, então, com o advento da sociedade de controle, que é predominantemente reticular, interconectada? Há uma mudança de natureza do próprio poder, que não é mais hierárquico, e sim disperso numa rede planetária, difuso. O poder hoje seria cada vez mais ilocalizável, porque disseminado entre os nós das redes. Sua ação não seria mais vertical, como anteriormente, mas horizontal e impessoal.

Poder: modulação dos bens simbólicos

[...] da mesma forma que o terrorismo é uma conseqüência do terror imposto pelo Estado, a ação não localizada dos hackers, produzindo disfunções e rupturas nas redes, parece ser o efeito que corresponde adequadamente aos novos modos de atuação do poder [reação ao controle expresso pelo poder através das redes]. Nenhuma forma de poder parece ser tão sofisticada quanto aquela que regula os elementos imateriais [simbólicos] de uma sociedade: informação, conhecimento, comunicação [grifo nosso]. O Estado, hoje está se tornando uma verdadeira matriz onipresente, modulando-os continuamente segundo variáveis cada vez mais complexas. Na sociedade de controle, estaríamos passando das estratégias de interceptação de mensagens ao rastreamento de padrões de comportamento…

Estratégias de controle pela rede: o rastreamento do perfil do usuário

Com a explosão das comunicações, uma nova figura ganha força: a vigilância das mensagens, do trânsito de comunicações. Vigiar passou a significar, sobretudo, interceptar, ouvir, interpretar.

O que parece interessar, acima de tudo, é como cada um se movimenta no espaço informacional. Isso parece dizer tanto ou mais sobre as pessoas do que seus movimentos físicos ou o conteúdo de suas mensagens. A vigilância constante sobre as trilhas que os indivíduos deixam na web, por exemplo, tornou-se objeto de inúmeras discussões e especulações. O modo como nos deslocamos por entre informações revela muito do como pensamos, pois mostra como associamos elementos díspares ou semelhantes.

O tracking generalizado nos chama a atenção. Há uma espécie de vigilância disseminada no social, já que todos podem, de certa forma, seguir os passos de todos. O controle exercido é generalizado, multilateral. As empresas controlam seus clientes; as ONGs controlam as empresas e os governos; os governos controlam os cidadãos; e os cidadãos controlam a si mesmos, já que precisam estar atentos ao que fazem.

Estamos falando aqui da importância da construção do perfil do usuário, termo que com o advento da web passou a ter um significado e uso mais amplo do que o atribuído pelos departamentos de RH. Na Internet, não temos uma identidade, mas um perfil (Costa, 2002).

Já na virada do milênio, o desenvolvimento da tecnologia de agentes inteligentes permitia mapear os perfis de usuários da web de maneira dinâmica, acompanhando suas atividades e aprendendo sobre seus hábitos. Essas novas ferramentas trabalham hoje não apenas orientadas por palavras-chave, mas também relacionando as consultas realizadas por todos os usuários em sua base de dados. Isso é feito com a finalidade de se encontrar padrões que possam auxiliar o próprio sistema na sua relação com os usuários, antecipando a oferta de produtos e serviços (Costa, 2002).

Ora, aquilo que na web é a construção de um perfil dinâmico de usuários com fins comerciais, que serve para alimentar a sociedade de controle light do marketing.

Conclusão

Em resumo, pode-se dizer que, no ciberespaço, para o bem ou para o mal, todos estão controlando todos, de maneira contínua e ininterrupta.E não esqueçamos jamais as origens militares a Internet…

Fontes:

CASTELLS, Manuel, A Sociedade em Rede na Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura – volume 1, São Paulo, Paz e Terra, 1999, p. 397;

COSTA, Rogério da, Sociedade de Controle, in http://www.scielo.br (acessado em 26 de junho de 2007).

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