Uma mídia da multidão (parte V)

By emvogas

Segmentação da TV

Castells, porém, é um incansável e talentoso “costureiro” e, no seu tecido argumentativo, está sempre oferecendo ao leitor os contra-argumentos possíveis em torno de cada argumento, os pontos de vista conflitantes sobre determinada questão, pontos e contrapontos oscilando ao redor de um mesmo tema. A cada argumento, por mais convincente que nos soe, o autor de imediato contrapõe um argumento antagônico; desse modo, convida o leitor o tempo todo a olhar cada questão por um ângulo distinto.

Assim sendo, o autor logo inverte a direção que aparentemente ia tomando a sua argumentação, tencionando nos mostrar que, na verdade, nem tudo é o que parece, ou seja, os supostos benefícios que essa transformação da mídia propicia são, a rigor, bastante limitados, uma vez que em nada afetam a estrutura de difusão em si.

Afinal de contas, quem é que comanda o negócio? Essa “segmentação” da programação televisiva e esse suposto “aprofundamento” do relacionamento individual entre o emissor e o receptor não representaram, de maneira alguma, um processo de democratização da comunicação no que se refere à produção e difusão de conteúdos. Tampouco significaram uma diversificação dos conteúdos nas grades para atender de maneira específica aos nichos de público mais segmentados, já que, a rigor, dado o monopólio que em geral prevalece nos sistemas de tele-difusão – sobretudo em países de periferia como o Brasil -, o que se verifica na prática, ainda hoje, é sempre “mais do mesmo”, “espelhos que se refletem mutuamente” (Bourdieu), “variações do mesmo tema sem sair do tom” (Herbert Viana).

 palhaco-p-blog.jpg

Em suma, essa adaptação das emissoras às faixas segmentadas de audiência, que teria introduzido a TV numa nova fase, não determinou, nem de longe, qualquer tipo de alteração na lógica que até então vinha balizando o processo de difusão da informação em nossa sociedade. Nesse sentido, Castells defende que:

O resultado da concorrência e concentração desse negócio é que, embora a audiência tenha sido segmentada e diversificada, a televisão tornou-se mais comercializada do que nunca e cada vez mais oligopolista no âmbito global. O conteúdo real da maioria das programações não é muito diferente de uma rede para outra, se considerarmos as fórmulas semânticas subjacentes dos programas mais populares como um todo. [...] A diversificação dos meios de comunicação, devido às condições de seu controle empresarial e institucional, não transformou a lógica unidirecional de sua mensagem, nem realmente permitiu o feedback da audiência, exceto na forma mais primitiva de reação do mercado. Embora a audiência recebesse matéria-prima cada vez mais diversa para cada pessoa construir sua imagem do universo, a Galáxia de McLuhan [o sistema de comunicação de massiva analisado pelo autor na década de 60] era um mundo de comunicação de mão-única, não de interação. Era, e ainda é, a extensão da produção em massa, da lógica industrial para o reino dos sinais e, apesar do gênio de McLuhan, não expressa a cultura da era da informação.

Partindo do que já foi exposto até aqui, concluímos que a grande transformação acarretada pela Internet não está tanto no ponto de chegada (“Quem recebe o quê?”; “Como recebe?”), mas, primordialmente, no próprio ponto de partida (Quem produz?; Quem emite?; Quem publica um conteúdo em longo alcance?), a partir do momento em que simplesmente confere a qualquer um a possibilidade de fazê-lo. O grande avanço da Internet neste sentido reside exatamente no fato de que sua estrutura é essencialmente horizontal, ao contrário da estrutura vertical que tradicionalmente predomina e orienta os grandes meios de comunicação, centralizada no Estado difusor e/ou nos oligopólios empresariais (os famosos conglomerados).

A Internet põe abaixo essa estrutura um-muitos, centro-periferia, uma vez que pulveriza o centro. Não há mais um centro propagador da informação e do conhecimento para as “massas”. No seu lugar, emergem vários centros, ou seja, cada indivíduo integrado à rede é potencialmente um centro em si mesmo, que pode transmitir e receber (fundamentalmente, trocar) conteúdos com outros centros potenciais (individualizados como ele). Subverte-se a estrutura um-muitos, que é trocada por uma nova, do tipo muitos-muitos, todos-todos. Não há mais um centro, ou uma periferia, mas apenas uma rede intangível e imensurável, com inumeráveis centros (ou nós, ou pontos, ou extremidades). 

Deixe uma resposta