Castells, porém, é um incansável e talentoso “costureiro” e, no seu tecido argumentativo, está sempre oferecendo ao leitor os contra-argumentos possíveis em torno de cada argumento, os pontos de vista conflitantes sobre determinada questão, pontos e contrapontos oscilando ao redor de um mesmo tema. A cada argumento, por mais convincente que nos soe, o autor de imediato contrapõe um argumento antagônico; desse modo, convida o leitor o tempo todo a olhar cada questão por um ângulo distinto.
Assim sendo, o autor logo inverte a direção que aparentemente ia tomando a sua argumentação, tencionando nos mostrar que, na verdade, nem tudo é o que parece, ou seja, os supostos benefícios que essa transformação da mídia propicia são, a rigor, bastante limitados, uma vez que em nada afetam a estrutura de difusão em si.
Afinal de contas, quem é que comanda o negócio? Essa “segmentação” da programação televisiva e esse suposto “aprofundamento” do relacionamento individual entre o emissor e o receptor não representaram, de maneira alguma, um processo de democratização da comunicação no que se refere à produção e difusão de conteúdos. Tampouco significaram uma diversificação dos conteúdos nas grades para atender de maneira específica aos nichos de público mais segmentados, já que, a rigor, dado o monopólio que em geral prevalece nos sistemas de tele-difusão – sobretudo em países de periferia como o Brasil -, o que se verifica na prática, ainda hoje, é sempre “mais do mesmo”, “espelhos que se refletem mutuamente” (Bourdieu), “variações do mesmo tema sem sair do tom” (Herbert Viana).
Em suma, essa adaptação das emissoras às faixas segmentadas de audiência, que teria introduzido a TV numa nova fase, não determinou, nem de longe, qualquer tipo de alteração na lógica que até então vinha balizando o processo de difusão da informação em nossa sociedade. Nesse sentido, Castells defende que:
O resultado da concorrência e concentração desse negócio é que, embora a audiência tenha sido segmentada e diversificada, a televisão tornou-se mais comercializada do que nunca e cada vez mais oligopolista no âmbito global. O conteúdo real da maioria das programações não é muito diferente de uma rede para outra, se considerarmos as fórmulas semânticas subjacentes dos programas mais populares como um todo. [...] A diversificação dos meios de comunicação, devido às condições de seu controle empresarial e institucional, não transformou a lógica unidirecional de sua mensagem, nem realmente permitiu o feedback da audiência, exceto na forma mais primitiva de reação do mercado. Embora a audiência recebesse matéria-prima cada vez mais diversa para cada pessoa construir sua imagem do universo, a Galáxia de McLuhan [o sistema de comunicação de massiva analisado pelo autor na década de 60] era um mundo de comunicação de mão-única, não de interação. Era, e ainda é, a extensão da produção em massa, da lógica industrial para o reino dos sinais e, apesar do gênio de McLuhan, não expressa a cultura da era da informação.
Partindo do que já foi exposto até aqui, concluímos que a grande transformação acarretada pela Internet não está tanto no ponto de chegada (“Quem recebe o quê?”; “Como recebe?”), mas, primordialmente, no próprio ponto de partida (Quem produz?; Quem emite?; Quem publica um conteúdo em longo alcance?), a partir do momento em que simplesmente confere a qualquer um a possibilidade de fazê-lo. O grande avanço da Internet neste sentido reside exatamente no fato de que sua estrutura é essencialmente horizontal, ao contrário da estrutura vertical que tradicionalmente predomina e orienta os grandes meios de comunicação, centralizada no Estado difusor e/ou nos oligopólios empresariais (os famosos conglomerados).
A Internet põe abaixo essa estrutura um-muitos, centro-periferia, uma vez que pulveriza o centro. Não há mais um centro propagador da informação e do conhecimento para as “massas”. No seu lugar, emergem vários centros, ou seja, cada indivíduo integrado à rede é potencialmente um centro em si mesmo, que pode transmitir e receber (fundamentalmente, trocar) conteúdos com outros centros potenciais (individualizados como ele). Subverte-se a estrutura um-muitos, que é trocada por uma nova, do tipo muitos-muitos, todos-todos. Não há mais um centro, ou uma periferia, mas apenas uma rede intangível e imensurável, com inumeráveis centros (ou nós, ou pontos, ou extremidades).
