Uma mídia da multidão

By emvogas

Comecemos por uma simplificação: A Internet é considerada uma mídia da multidão porque é construída pela própria multidão, a partir dos princípios de cooperação e complementaridade. A multidão, portanto, é aqui compreendida não como uma entidade una e homogênea, mas como o conjunto de atores diversos que a compõem (sem que esta diversidade jamais se perca ou se dilua em seu interior), ou seja, a soma dos indivíduos que se complementam num trabalho criativo/cognitivo que obedece a um sistema cooperativo, preservando as suas singularidades. Não se trata, portanto, do “todo”, mas, antes, da “soma das partes”.

Assim, é importante que, de início, façamos uma distinção conceitual entre “multidão” e “massa”, “povo” ou termos similares. Para isso, vamos nos remeter à valiosa definição de Antonio Negri, que, em “Multidão: guerra e democracia na era do império” [2006], afirma o seguinte:

Para entender o conceito de multidão em sua forma mais geral e abstrata, vamos inicialmente contrastá-lo com o de povo. O povo é uno. A população, naturalmente, é composta de numerosos indivíduos e classes diferentes, mas o povo sintetiza ou reduz essas diferenças sociais a uma identidade. A multidão, em contraste, não é unificada, mantendo-se plural e múltipla. [...] A multidão é composta por um conjunto de singularidades – e com singularidades queremos nos referir aqui a um sujeito social cuja diferença não pode ser reduzida à uniformidade, uma diferença que se mantém diferente. As partes componentes do povo são indiferentes em sua unidade; tornam-se uma identidade negando ou apartando suas diferenças. As singularidades plurais da multidão contrastam, assim, com a unidade indiferenciada do povo. [...] Os componentes das massas, do populacho e da turba não são singularidades – o que fica evidente pelo fato de que suas diferenças tão facilmente se esvaem na indiferença do todo. Além disso, os sujeitos sociais são fundamentalmente passivos, no sentido de que não são capazes de agir por si mesmos, precisando ser conduzidos. ["massas de manobras"] [...] Por isso é que são tão suscetíveis à manipulação externa. A multidão é um sujeito social internamente diferente e múltiplo cuja constituição e ação não se baseiam na identidade ou na unidade (nem muito menos na indiferença), mas naquilo que as singularidades têm em comum.

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