Posts de Julho, 2007
Malini desbravando a terrinha
Julho 24, 2007Sem Movimento
Julho 7, 2007Especial Transcol (parte III – o sofrimento continua)
Julho 6, 2007A epifania de um blog
Julho 2, 2007Caríssimos (e raríssimos) leitores,
Como vocês seguramente já notaram, nosso blog está fincado sobre a linguagem da charge (conexão palavra-imagem ou texto verbal-visual, para passar ao leitor sagaz uma mensagem crítica de maneira divertida e instigante). Por isso, até aqui, vimos buscando evitar publicar textos escritos.
A despeito da enxurrada de linhas que dominou os últimos posts – tendo em vista o cumprimento de um trabalho acadêmico -, temos sido parcimoniosos com o uso da palavra escrita, a qual, afinal, é reconhecidamente a matéria-prima central [elementar] de todo blog que se preze, não por acaso considerada o principal instrumento de criação do universo dos blogueiros, assim como a imagem, a priori, estaria associada aos fotologs.
No nosso caso, porém, quando nos empenhamos na tarefa de começar a construir este espaço, concluímos que o seu uso não só se fazia dispensável como particularmente inconveniente, já que, forçoso é convir, pedir para um chargista explicar ou comentar o seu trabalho é quase tão inadequado quanto reclamar a um poeta que explique em voz alta o seu poema. A obra deve falar por si e, de preferência, falar distintamente a cada ouvido, olhar ou mente.
Bem, fazemos esse intróito apenas para esclarecer razão que nos leva a fazer deste post uma exceção. É que há muito já vínhamos querendo dedicar um post a enaltecer o belíssimo trabalho que vem sendo realizado por duas de nossas colegas, Ludmila e Monica, num blog “coligado” [convencionado] ao nosso, o identidade epifanica, que pode sempre ser encontrado na nossa lista de blogs relacionados (linkado em nosso blogroll, para empregar o jargão próprio do meio).
Antes de tudo, queremos destacar que as duas primam pela competência precisamente naquilo que nós vimos nos esquivando de fazer: escrivinhar, palavrear, prosear, dissertar, em suma, explorar a palavra escrita. As duas o fazem com maestria, num estilo bastante autoral, muito embora eu deva admitir que encontre às vezes alguma dificuldade em discernir qual delas escreve o quê, não porque essa “identidade” que nos traz o título do blog seja de fato uma só na dupla, mas porque enorme é a “identificação” que encontram ambas na escolha das pautas e na linha de raciocínio que seguem ao discorrer sobre um tema qualquer ou naquilo que, como elas mesmas dizem, lhes causa “inquietação”. Assim, não se trata de uma identidade una, no singular, mas de duas identidades coesas, num plural compartilhado. Identidade compreendida, portanto, como “afinidade”, “reciprocidade”.
É claro que elas não são idênticas no estilo, porém estão em tamanha sintonia que conseguem projetar no próprio blog uma identidade própria, independentemente de quem assuma o teclado. Ao entrarem a fundo nas zonas mais cavernosas de cada tema, vê-se também que exibem um estilo direto e contundente, demonstrando maturidade, personalidade e, principalmente, propriedade para falar sobre o que falam. Destilam suas reflexões e sua criticidade pelo blog com elegância, pertinência e fundamentação, o que pode ser comprovado pelos links, sempre em abundância nas mensagens e sempre encurtando a distância para informações complementares que de fato enriquecem o conteúdo. Por sua vez, a freqüência e a qualidade [pertinência] dos links reflete uma pesquisa prévia das autoras, uma pré-paração para abordarem as questões.
Os posts se assemelham a artigos, embora mais inclinados para o domínio literário da crônica, fundindo informações objetivas a respeito de um assunto com reflexões em torno dele (os fatos e as idéias que os rodeiam, as quais elas defendem ou rechaçam), agregando, ainda, opiniões e relatos pessoais de experiências relacionadas àquilo de que estão tratando, o que, além de imprimir aos textos um caráter de crônica, oferece ao leitor um olhar bastante pessoal acerca de cada questão que elas resolvem trazer à baila – passando do campo objetivo para o subjetivo e desse voltando ao primeiro em questão de poucas linhas; um e outro se interpenetram por entre as linhas imaginárias do texto na tela de plasma.
Assim, cada post é, na verdade, um convite ao navegante da blogosfera (explorador do ciberespaço) para atracar naquele porto epifânico por mais minutos do que costuma (e do que valeria a pena) ancorar a sua nave em cada escala da viagem [permanecer em cada parada ciberespacial]. O blog consiste, enfim, num espelho parcial da(s) identidade(s) que as duas carregam, isto é, a expressão da identidade das autoras e, mais que tudo, um túnel de acesso a segundos de epifania que elas nos presenteiam e convidam a experimentar. Este é o primeiro ponto alto.
Ele só já nos saciaria, mas não é só. Além do belo estilo, um fator fundamental concorre para formar a mencionada identidade. É que, em vez de desperdiçar este talento escrevendo sobre assuntos sem nenhuma relevância, as duas, invariavelmente, capricham na escolha da pauta: via de regra, elas direcionam a sua lente para problemas sociais que normalmente passam incólumes ante a marcha da sucessão dos dias, que ultimamente têm sido tragados pelo nosso cotidiano avassalador, pequenos dramas rotineiros que, de tanto se repetir ou serem mecanicamente noticiados pelos canais da imprensa oficial, acabam caindo na vala do “comum” – desculpe-me, Malini, a conotação é outra – e, por extensão, do trivial, do natural, do esquecimento; tragédias cuja gravidade, de tão insistentes que são, acaba arrefecendo, perdendo os contornos berrantes, ganhando outros mais modestos, mais discretos, de rotina.
Daí a importância de haver sempre aqueles que reacendam com seu giz estes contornos e nos levem a recordar ou mesmo acordar para a gravidade de tais problemas. E é isso que, modestamente, elas vêm logrando fazer (sem superestimar, mas também sem subestimar o poder encerrado num blog como o delas, quanto a atingir subjetividades, sensibilizar indivíduos e ajudar a construir opiniões). É isso, sensibilizadoras potenciais, eis o que são as duas colegas blogueiras.
Curioso me lembrar agora de que, no início do semestre, ao incluir o identidadeepifânica na minha lista de blogs vinculados, fiquei um tanto indeciso quanto ao que deveria preencher no campo que solicita a descrição do blog a ser incluído. Na dúvida, acabei recorrendo à memória e optei por uma simplificação: Já conhecia a Ludmila de algum tempo por trabalhar, como ela, na Secretaria de Assistência Social do município de Vitória, onde funcionam diversos programas e onde ela é assessora de imprensa. Quanto à Monica, em conversa informal, descobri que tinha forte ligação (ou, pelo menos, interesse) em movimentos sociais aqui do Estado. Bem, juntei as peças e, assim como dois mais dois são quatro, concluí o seguinte simplismo: “blog sobre projetos e movimentos sociais do Espírito Santo” – e é assim que ainda deve estar lá, se alguém se animar a conferir, porquanto eu desde então não tenha feito a devida correção.
Pois o fato é que, como as próprias autoras anunciam em seu blog, essa definição, na verdade, é muito mais profunda e subjetiva do que a que eu metidamente pressupus. Está lá, em “Sobre ientidade epifânica”: “nosso blog é sobre tudo, ou qualquer coisa, que nos causa alguma inquietação”. Bem, diante de um objeto de preocupação [uma “editoria” de recorte] tão abrangente, é claro que as pautas abordadas não poderiam deixar de ser vastas e diversificadas, percorrendo desde a ação predatória da Aracruz Celulose contra o meio-ambiente e os povos indígenas que a ele pertencem, até as lutas pela erradicação do trabalho e da exploração sexual infantil e a denúncia da situação calamitosa vivida (?) pelos usuários da saúde pública nos hospitais estaduais da Grande Vitória.
O mais importante de tudo é a sensibilidade com que as duas escrevem e que é, em última instância, o traço predominante que confere ao blog sua identidade. Sensibilidade que perpassa cada texto, e que para mim é particularmente notável no post “Apesar de Santo, não é um céu”, do qual, abaixo, tomei a liberdade de transcrever um trecho:
“Pois é, fui ao Hospital São Lucas recentemente e o que vi no maior hospital público do Espírito Santo não me deixou apenas inquieta, mas revoltada. Primeiro porque a direção do Hospital não permite que a impressa entre e registre o caos que é aquele lugar. Por motivos pessoais, infelizmente não pude fotografar ou filmar. Mas posso contar o que o vi”.
O post cativou a minha atenção por uma razão muito simples: reconheci-me perfeitamente no relato de Ludmila (ou Monica?), uma vez que já estive exatamente no lugar em que ela esteve (querendo dizer no local e no papel). Foi quando, há um ano exato, estava ajudando a produzir o “Primeiro Mão”, jornal impresso experimental mais respeitado do curso de Comunicação da Ufes. Na edição n° 102, a reportagem de capa foi um especial que, junto com alguns colegas, escrevi sobre a situação da saúde pública no Estado, com ênfase no caos hospitalar. Para tanto, me coube “visitar” alguns dos hospitais da rede estadual, destacando-se o próprio São Lucas. Ali, tal como Ludmila, pude presenciar uma situação que já tinha início com um tom dramático nas filas de espera pelo “pronto” atendimento e que só ia se agravando conforme íamos penetrando pelos corredores internos do hospital.
Pois o caso é que, indo um pouco além da colega, talvez impelido pela necessidade, pelo instinto (o tal “faro jornalístico”) – e, mormente, pela vontade de externar aquele quadro, me propus a adentrar clandestinamente as dependências do São Lucas. Passando-me por acompanhante de uma senhora que aguardava atendimento num dos corredores externos – esquecida no chão em uma maca qual fosse um dejeto humano – e com cuja parente havia travado conhecimento (puxado um dedinho de prosa) durante a espera interminável –, súbito me vi mergulhado naquele mar (estreito, muito estreito) de gente, angústia e sofrimento humano. De fato, conforme afirmou a minha colega, eles não permitem filmagem, gravação ou qualquer tipo de registro no interior do hospital; mesmo assim, como já havia chegado incógnito e ileso até ali e já estava mesmo me arriscando, decidi arriscar-me ainda mais e, ignorando a proibição, tratei de sacar da mochila a câmera digital.
Por breves instantes, pela primeira vez na carreira de jornalista sequer iniciada (portanto, pré-carreira), me vi em uma situação concreta confrontado com o dilema: ¿se fotografar essas pessoas, estarei lhes trazendo um benefício, ou a outros como eles, ainda que indiretamente, uma vez que estarei denunciando aquela situação, ou, ao contrário, a minha irrisória matéria de nada servirá, jamais chegará perto de deflagrar uma mudança efetiva e substancial naquele quadro (considerando a nossa circulação, sequer fará cócegas no governo), por melhores que sejam as minhas ingenuamente heróicas intenções e, sendo assim, o que eu aqui estou a fazer não vai além de explorar em vão a dor alheia, exatamente aquilo que tanto repudiamos nos veículos da grande mídia em sala de aula e nas rodas de bate-papo, visando tão-somente a auto-promoção e a vendagem de mais exemplares do jornal que represento? Superada essa breve hesitação, acabei optando pela primeira alternativa– até porque a idéia de vender mais jornais estava absolutamente excluída, visto que o “Primeira Mão” possui uma tiragem baixíssima e é distribuído gratuitamente pelo campus. Convenci-me então – e creio ainda hoje, sinceramente – que podia estar desempenhando um trabalho importante e de interesse social.
Assim, lá fui eu dar os meus clicks. Durante essa operação, a máquina que eu portava camuflada quase me foi tomada por uma enfermeira atenta, que, desconfiada do meu expediente, veio tirar satisfações comigo, pois a cada click disparado seguia-se um flash escandaloso, bastante contra-indicado para quem pretendia ser discreto, o qual, estupidamente nervoso, não consegui desativar ali na hora. É claro, neguei (e negaria até a morte) saber do que falava a enfermeira.
Bem, o mais importante na história é que, no fim, fui bem sucedido em tirar as fotos que almejava e, confiante na ótima memória – bloquinho de anotações em punho já seria brincar demais com a sorte, a menos que eu arrumasse um jaleco e me passasse por enfermeiro preenchendo prontuários –, fui-me embora para, em seguida, reunindo os outros dados levantados, redigir a minha parte da matéria. O caso, porém, é que a experiência vivida nessas inexpressivas nem duas horas que passei lá no São Lucas foi de tal intensidade que, ao sair de lá, e mesmo durante a redação do texto, precisei encontrar alguma forma de verbalizar aquele emaranhado de sensações negativas, as piores possíveis.
O meio que encontrei para exprimi-las foi uma crônica, justamente à maneira dos textos que as meninas tão bem escrevem no identidade epifanica. O texto me tomou de assalto em meio ao texto de teor mais jornalístico que eu começara a escrever. Quando comecei a redigi-lo, queria lhe dar feições um pouco mais literárias, mudei um pouco o estilo, as palavras fluíram naturalmente como líquido, como um córrego inundando o editor de texto; quando fui me dar conta, a crônica ganhara vida própria, era um texto interno a outro, que, por si, já encerrava o trabalho.
Contudo, inseguro quanto a meu dever, se podia pôr um termo no trabalho (afinal, havia apurado tanto), retomei o texto mais informativo do início. Assim, no final tinha dois textos, em estilos totalmente diferentes, mas que, cada qual à sua maneira, expressavam muito bem a gravidade da situação que me dispusera a retratar. É lógico, porém, que o espaço que me iriam conceder era, como de praxe, reduzido, não sendo possível a publicação de ambos, o que me forçava a uma cruel escolha.
Entre um e outro, literatura realista ou jornalismo, acabei preferindo o segundo. E acabei me arrependendo. Deveria ter publicado a crônica. O espaço que me restou no fim era ainda menor do que eu temia e a reportagem que se pretendia “profunda” acabou virando a mais rasa. Como sou adepto à idéia de que não se deve fazer arroz com feijão ralo quando se poderia ter feito macarronada – quem pode fazer macarronada jamais deve contentar-se com menos –, acabei de todo frustrado com o “produto final”.
Antes tivesse prestigiado a crônica, um texto menor, mais condensado e mais focado, trazendo a observação participante de uma cena de terror escancarada, uma chaga social mal suturada nas entranhas daquele hospital, um olhar de perto sobre um trecho da tragédia humana que ali se desenrola todo dia (de alguém que não faz parte da peça e invadiu a cena pelos fundos).
O mesmo texto que, ainda inédito, divido agora com vocês, para quem sabe inaugurar a divisão mais literária deste blog. Para ilustrar a crônica, reedito um desenho já publicado neste espaço. É a charge do “Estado Terminal”, para dar continuidade à série “Especial Transcol” que iniciei na quinta-feira, agora acrescida de um novo detalhe, que não vai passar alheio ao leitor minimalista – a mesma que Ludmila e Monica analisaram e que lhes serviu como pretexto para escreverem outro texto excelente, dessa vez indignadas com o Transcol.
Assim, vai como outra forma de fazer menção e retribuir à dupla, para quem já desenhei sob encomenda (a charge do Cesar Colnago, postada aqui em maio). Espero novos convites para reeditar a parceria. Vocês, minguados leitores, fiquem com o texto e a ilustração:
Uma mídia da multidão (parte final)
Julho 1, 2007Conclusão
Por fim, à guiza de conclusão, vale fazer um exercício imaginativo em relação ao futuro da rede. Reafirmamos as perspectivas promissoras que nos abre esse novo espaço para os processos comunicacionais, essa nova arena em que se travam as interações humanas.
Uma derradeira vez, vamos citar o teórico espanhol que norteou esta nossa pesquisa. Afirma Castells:
A arquitetura da rede é, e continuará sendo, aberta sob o ponto de vista tecnológico, possibilitando amplo acesso público e limitando seriamente restrições governamentais ou comerciais a esse acesso, embora a desigualdade social se manifeste de maneira poderosa no domínio eletrônico.
Embora entusiasmado com o avanço da Internet, ele nos apresenta uma importante ressalva, recordando-nos da importância de expandirmos em nível mundial, para todos os povos do planeta, o acesso à Internet. Esta ainda se encontra extremamente limitada aos chamados países centrais do ponto de vista econômico e tecnológico, ao passo que, nos países periféricos, tais como o Brasil, permanece restrita às elites locais. Vale sublinhar que programas de inclusão e alfabetização digital vêm se revelando uma boa alternativa para minimizar esse desequilíbrio, conquanto avancem todos de maneira muito lenta.
Finalmente, para encerrar estas reflexões, demarcamos o que talvez seja aquele ponto-chave que justamente nos permite discernir uma mídia de massa (como a TV) de uma mídia como a Internet, construída pela multidão, que absorve e contém nela mesma a idéia de multidão, que traz, intrínseca a ela, a própria essência da multidão.
Diferentemente da mídia de massa da Galáxia de McLuhan, [as redes eletrônicas] têm propriedades de interatividade e individualização tecnológica e culturalmente embutidas.
Bibliografia:
CASTELLS, Manuel, A Sociedade em Rede na Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura – volume 1, São Paulo, Paz e Terra, 1999, pp 353-398;
LEVY, Pierre, Cibercultura, São Paulo, Editora 34, 1999, PP 123-131.
Uma mídia da multidão (parte VIII)
Julho 1, 2007Cooperação e Interação
Assim, talvez novamente sob o risco de incorrermos em algum reducionismo, entendemos poder resumir em dois fatores a revolução que a Internet desencadeou para os processos comunicacionais: interação e cooperação, para o intercâmbio de informações e a produção coletiva de conhecimentos (veja-se a Wikipedia, exemplo que já se tornou lugar comum para ilustrar essa tendência).
Na mesma linha argumentativa, Castells sustenta que a criação da WWW, no início dos anos 90, correspondeu a um fator determinante para a explosão dessas possibilidades de interação na rede:
Com o surgimento da World Wide Web – WWW (Rede de Alcance Mundial), tornou-se possível a formação de agrupamentos por área de interesse e projetos na rede. Com base nesses agrupamentos, pessoas físicas eram capazes de interagir de forma expressiva no que se tornou, literalmente, uma Teia de Alcance Mundial para comunicação individualizada, interativa.
Referendando as teses de Castells, Pierre Levy ainda o supera em entusiasmo ao debruçar-se sobre as possibilidades geradas pela Web. Reconhecidamente um autor “integrado” às novas tecnologias da informação, (segundo a terminologia proposta por Umberto Eco) e um otimista convicto em torno do ciberespaço (para usar a sua própria expressão), Levy sentencia, em tom profético
[...] o ciberespaço como prática de comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária, o ciberespaço como horizonte de mundo virtual vivo, heterogêneo e intotalizável no qual cada ser humano pode participar e contribuir. Qualquer tentativa de reduzir o novo dispositivo de comunicação às formas midiáticas anteriores (difusão “um-todos” de um centro emissor em relação a uma periferia receptora) só pode empobrecer o alcance do ciberespaço para a evolução da civilização.
Hoje, podemos apontar como a máxima expressão desse sistema de interação as ditas “comunidades virtuais”, as quais vêm se multiplicando intensamente, com o surgimento de diversos programas para esse fim – a exemplo do Orkut, que oferece uma interface facílima de se operar e vem obtendo um alcance quase universal.
Nesse ponto, é imprescindível detalhar o próprio conceito de “comunidades virtuais”. Segundo Castells:
É o que, ao encontro da afirmação de Rheingold, geralmente se entende como uma rede eletrônica de comunicação interativa autodefinida, organizada em torno de um interesse ou finalidade compartilhados, embora algumas vezes a própria comunicação se transforme no objeto.
Levy parece concordar:
Uma comunidade virtual é construída sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades geográficas e das filiações institucionais. [...] As comunidades virtuais do ciberespaço oferecem, para debate coletivo, um campo de prática mais aberto, mais participativo, mais distribuído que aquele das mídias clássicas.
E complementa, lembrando um dos lemas mais difundidos da contracultura digital: “No novo sistema, “horário nobre é o meu horário”.
Uma mídia da multidão (parte VII)
Julho 1, 2007As origens contraculturais
Contudo, como teve início essa história? Para que fique mais claro para nós como a própria origem e a popularização da Internet estão arraigadas ao conceito de multidão – já destrinchado acima –, convém voltarmos um pouco num passado recente, a fim de resgatarmos o ponto de partida desse processo de evolução do meio. Nesse ponto, lembremos o que escreveu Pierre Levy:
A emergência do ciberespaço é fruto de um verdadeiro movimento social, com um grupo líder (a juventude metropolitana escolarizada), suas palavras de ordem (interconexão, criação de comunidades virtuais, inteligência coletiva) e suas aspirações coerentes.
E, adiante, no mesmo texto:
A informática pessoal não foi decidida, e muito menos prevista, por qualquer governo ou multinacional poderosa. Seu inventor e principal motor foi um movimento social visando a reapropriação em favor dos indivíduos de uma potência técnica que até então havia sido monopolizada por grandes instituições burocráticas. [...] A Internet é um dos mais fantásticos exemplos de construção cooperativa internacional, a expressão técnica de um movimento que começou por baixo, constantemente alimentado por uma multiplicidade de iniciativas locais.
Castells coaduna com a análise de Levy:
A história do desenvolvimento da Internet e da convergência de outras redes de comunicação para a grande Rede [...] é, na verdade, uma rara mistura de estratégia militar, grande cooperação científica e inovação contracultural.
Nos relatos e textos que analisam as origens da Internet, costuma-se ressaltar profundamente a participação do establishment militar e da comunidade científica, sobretudo aquela sediada nos Estados Unidos. Mas, de acordo com Castells:
Esse é apenas um lado da história, pois, paralelamente aos esforços do pentágono e da “Grande Ciência” para estabelecer uma rede universal de computadores com acesso público dentro das “normas aceitáveis”, uma contracultura computacional sempre crescente surgia nos EUA, muitas vezes mentalmente associada às conseqüências dos anos 60 em sua versão mais libertária / utópica.
Com efeito, pode-se afirmar que, de certo modo, esse universo underground dos hackers (naqueles tempos mais remotos, sem a conotação pejorativa que o termo acabaria adquirindo com o passar dos anos) bebeu amplamente da fonte político-cultural de movimentos sócio-culturais originados na década de 60, que podem ser perfeitamente enquadrados no que o autor trata como “os anos 60 em sua versão mais libertária / utópica”.
Aqui, apenas a título de registro, cabe lembrar que, entre estes movimentos, podemos sublinhar: o movimento hippie (com Woodstock e o flower power), o movimento negro (com o black power), o movimento gay e o movimento feminista (com a revolução sexual), os movimentos trabalhistas (com a recusa do trabalho nos moldes capitalistas tradicionais), as vanguardas artísticas (com a recusa da arte institucionalizada) e, finalmente, os movimentos urbanos e comunitários (com a luta por direitos civis, humanos e sociais), todos reforçados pelo surgimento de uma série de organizações não-governamentais.
Castells prossegue a sua análise detendo-se sobre as conseqüências dessa “influência hacker” na remodelação da rede, que se desviou de sua inspiração original, exclusivamente dirigida para fins militares, para passar por um processo de “horizontalização”, ou seja, disseminação em larga escala, democratização do meio, que, em tese, tornou-se acessível a todos os indivíduos. Vejamos o que o autor nos diz acerca disso:
Ironicamente, essa abordagem contracultural da tecnologia teve efeito similar na estratégia de inspiração militar do sistema de rede horizontal: disponibilizou meios tecnológicos a qualquer pessoa com conhecimento tecnológico e uma ferramenta computacional, o PC, que logo iniciaria uma tremenda progressão simultânea de poder crescente e preço decrescente.
Na seqüência do trabalho, frisa como, além de toda a parte técnica (a disponibilização dos recursos tecnológicos), o trabalho autônomo de grupos de pessoas isoladas (porém conectadas, cooperando entre si), movidas pelo ideário contracultural (o que quiçá poderíamos denominar de “submundo do meio eletrônico”), acabou revolucionando a própria cultura que viria, espontaneamente, a se firmar na rede, devido ao próprio uso que os usuários passaram a fazer dela, isto é, o modo como passaram a empregá-la. Sobre isso, diz Catells:
Essa cultura eletrônica dos primeiros usuários [de absoluta cooperação e rejeição da entrada de interesses comerciais não-declarados] marcou para sempre a evolução e o uso da rede. Embora os tons mais heróicos e a ideologia contracultural tenham desaparecido com a generalização do meio em escala global, as características tecnológicas e os códigos sociais desenvolvidos a partir do uso gratuito original da rede deram forma a sua utilização.
E, na continuação:
[...] o que permanece das origens contraculturais da rede é a informalidade e a capacidade auto-reguladora de comunicação, a idéia de que muitos contribuem para muitos, mas cada um tem a própria voz e espera uma resposta individualizada.
Nesse sentido, Castells prossegue salientando que a própria idéia de cooperação foi o “novo marco”, isto é, o elemento mais revolucionário que os usuários-cidadãos lograram introduzir na lógica das redes digitais que foram se estabelecendo desde então:
A abertura do sistema também resulta do processo inovador constante e da livre acessibilidade imposta pelos primeiros hackers de computadores (em seu sentido original) e pelas milhares de pessoas que ainda usam a rede como hobby. Esse esforço constante e multifacetado para melhorar a comunicabilidade da rede constitui um notável exemplo de como a produtividade de cooperação tecnológica através da rede acabou por aperfeiçoá-la.



