As origens contraculturais
Contudo, como teve início essa história? Para que fique mais claro para nós como a própria origem e a popularização da Internet estão arraigadas ao conceito de multidão – já destrinchado acima –, convém voltarmos um pouco num passado recente, a fim de resgatarmos o ponto de partida desse processo de evolução do meio. Nesse ponto, lembremos o que escreveu Pierre Levy:
A emergência do ciberespaço é fruto de um verdadeiro movimento social, com um grupo líder (a juventude metropolitana escolarizada), suas palavras de ordem (interconexão, criação de comunidades virtuais, inteligência coletiva) e suas aspirações coerentes.
E, adiante, no mesmo texto:
A informática pessoal não foi decidida, e muito menos prevista, por qualquer governo ou multinacional poderosa. Seu inventor e principal motor foi um movimento social visando a reapropriação em favor dos indivíduos de uma potência técnica que até então havia sido monopolizada por grandes instituições burocráticas. [...] A Internet é um dos mais fantásticos exemplos de construção cooperativa internacional, a expressão técnica de um movimento que começou por baixo, constantemente alimentado por uma multiplicidade de iniciativas locais.
Castells coaduna com a análise de Levy:
A história do desenvolvimento da Internet e da convergência de outras redes de comunicação para a grande Rede [...] é, na verdade, uma rara mistura de estratégia militar, grande cooperação científica e inovação contracultural.
Nos relatos e textos que analisam as origens da Internet, costuma-se ressaltar profundamente a participação do establishment militar e da comunidade científica, sobretudo aquela sediada nos Estados Unidos. Mas, de acordo com Castells:
Esse é apenas um lado da história, pois, paralelamente aos esforços do pentágono e da “Grande Ciência” para estabelecer uma rede universal de computadores com acesso público dentro das “normas aceitáveis”, uma contracultura computacional sempre crescente surgia nos EUA, muitas vezes mentalmente associada às conseqüências dos anos 60 em sua versão mais libertária / utópica.
Com efeito, pode-se afirmar que, de certo modo, esse universo underground dos hackers (naqueles tempos mais remotos, sem a conotação pejorativa que o termo acabaria adquirindo com o passar dos anos) bebeu amplamente da fonte político-cultural de movimentos sócio-culturais originados na década de 60, que podem ser perfeitamente enquadrados no que o autor trata como “os anos 60 em sua versão mais libertária / utópica”.
Aqui, apenas a título de registro, cabe lembrar que, entre estes movimentos, podemos sublinhar: o movimento hippie (com Woodstock e o flower power), o movimento negro (com o black power), o movimento gay e o movimento feminista (com a revolução sexual), os movimentos trabalhistas (com a recusa do trabalho nos moldes capitalistas tradicionais), as vanguardas artísticas (com a recusa da arte institucionalizada) e, finalmente, os movimentos urbanos e comunitários (com a luta por direitos civis, humanos e sociais), todos reforçados pelo surgimento de uma série de organizações não-governamentais.
Castells prossegue a sua análise detendo-se sobre as conseqüências dessa “influência hacker” na remodelação da rede, que se desviou de sua inspiração original, exclusivamente dirigida para fins militares, para passar por um processo de “horizontalização”, ou seja, disseminação em larga escala, democratização do meio, que, em tese, tornou-se acessível a todos os indivíduos. Vejamos o que o autor nos diz acerca disso:
Ironicamente, essa abordagem contracultural da tecnologia teve efeito similar na estratégia de inspiração militar do sistema de rede horizontal: disponibilizou meios tecnológicos a qualquer pessoa com conhecimento tecnológico e uma ferramenta computacional, o PC, que logo iniciaria uma tremenda progressão simultânea de poder crescente e preço decrescente.
Na seqüência do trabalho, frisa como, além de toda a parte técnica (a disponibilização dos recursos tecnológicos), o trabalho autônomo de grupos de pessoas isoladas (porém conectadas, cooperando entre si), movidas pelo ideário contracultural (o que quiçá poderíamos denominar de “submundo do meio eletrônico”), acabou revolucionando a própria cultura que viria, espontaneamente, a se firmar na rede, devido ao próprio uso que os usuários passaram a fazer dela, isto é, o modo como passaram a empregá-la. Sobre isso, diz Catells:
Essa cultura eletrônica dos primeiros usuários [de absoluta cooperação e rejeição da entrada de interesses comerciais não-declarados] marcou para sempre a evolução e o uso da rede. Embora os tons mais heróicos e a ideologia contracultural tenham desaparecido com a generalização do meio em escala global, as características tecnológicas e os códigos sociais desenvolvidos a partir do uso gratuito original da rede deram forma a sua utilização.
E, na continuação:
[...] o que permanece das origens contraculturais da rede é a informalidade e a capacidade auto-reguladora de comunicação, a idéia de que muitos contribuem para muitos, mas cada um tem a própria voz e espera uma resposta individualizada.
Nesse sentido, Castells prossegue salientando que a própria idéia de cooperação foi o “novo marco”, isto é, o elemento mais revolucionário que os usuários-cidadãos lograram introduzir na lógica das redes digitais que foram se estabelecendo desde então:
A abertura do sistema também resulta do processo inovador constante e da livre acessibilidade imposta pelos primeiros hackers de computadores (em seu sentido original) e pelas milhares de pessoas que ainda usam a rede como hobby. Esse esforço constante e multifacetado para melhorar a comunicabilidade da rede constitui um notável exemplo de como a produtividade de cooperação tecnológica através da rede acabou por aperfeiçoá-la.